Como criar uma apresentação do zero (sem travar no PPT)
Você abre o PowerPoint, olha para o slide em branco e espera. Espera a ideia chegar. Ela não chega — e você acaba fazendo exatamente o que sempre fez: título em cima, quatro pontinhos embaixo, próximo slide. O problema não é a sua cabeça, é a pergunta: quem procura como criar uma apresentação do zero está partindo de uma premissa que não se sustenta, a de que a criatividade nasce ali, na tela vazia.
Ela não nasce ali. Ela vem do seu repertório — e repertório é uma coisa que se constrói, com hábito, antes de o arquivo ser aberto.
Este artigo te entrega os quatro hábitos que constroem esse repertório, o método de três passos que transforma uma referência qualquer em slide seu, e a ordem certa de fazer as coisas — que, adianto, não começa no PowerPoint.
Criatividade não é uma habilidade com a qual a gente nasce. É uma habilidade que você desenvolve ao longo da sua vida.
Por que criar uma apresentação do zero trava tanta gente
Em toda a minha carreira corporativa, eu sempre me destaquei muito por uma habilidade: a de ser criativo. E as pessoas chegavam em mim e falavam coisas como “nossa, mas de onde sai toda essa criatividade da sua cabeça, meu Deus”. Teve uma frase que eu ouvi mais de uma vez:
Às vezes eu queria emprestar um pouquinho dessa sua criatividade e colocar dentro de mim.
Repare no verbo. Emprestar. Como se criatividade fosse um objeto que uns têm e outros não — e a única saída de quem não tem fosse pedir emprestado.
E no passado eu comprei essa história. Eu pensava: será que minha mãe tem razão, será que eu sou mesmo uma pessoa especial? Será que criatividade é uma habilidade com a qual eu já nasci?
Aí eu comecei a revisitar o meu passado. E percebi o que mudou tudo: ao longo da minha criação, eu tinha várias atitudes que me tornaram uma pessoa mais criativa. Atitudes. Não um dom. Comportamentos que eu repetia sem perceber que estava me treinando — e que eu replico até hoje.
Isso não quer dizer que todo mundo comece do mesmo ponto: dependendo da escola onde você estudou, da família que você tem e do trabalho que hoje você exerce, você teve mais ou menos possibilidade de desenvolver essa habilidade. Mas ponto de partida é diferente de ponto de chegada. Se você não conseguiu se desenvolver criativamente no passado, isso não quer dizer que você não consiga hoje. É tudo uma questão de mudar os seus hábitos.
São quatro hábitos, e eles vêm a seguir — hábitos que até hoje eu desenvolvo no meu dia a dia.
Criatividade é forma + conteúdo: a metáfora do biscoito
O processo de criar alguma coisa não é nada mais do que o processo de fazer um biscoito. Calma que eu explico.
Para fazer um biscoito você tem formas diferentes, e dependendo do formato que você usa, você tem uma criação diferente. Só que cada forma também precisa de um conteúdo — o recheio. E dependendo do recheio que eu coloco ali dentro, eu tenho outra criação de novo. Forma redonda com chocolate. Forma de estrela com chocolate branco. Mesma cozinha, resultados completamente diferentes.
Portanto, para se tornar uma pessoa mais criativa, você precisa de duas coisas: novos conteúdos e a capacidade de enxergar novas formas.
Deixa eu tirar isso da cozinha. Imagine que eu queira inovar dentro de um treinamento sobre inteligência emocional. O treinamento tradicional é você chegar lá, pegar uma apresentação de PowerPoint, jogar um monte de conteúdo lá dentro, entrar numa sala e falar sobre esse conteúdo. É o que quase todo mundo faz — e não por preguiça: é a única forma disponível na cabeça de quem cria.
Como é que eu inovo nesse processo? Primeiro, enxergando diferentes formas de entregar aquilo. Será que eu consigo tornar esse treinamento mais gamificado? Mais interativo? Alguma coisa que aumente o engajamento das pessoas na sala?
E, em relação ao conteúdo: o meu tema é inteligência emocional, ok. Mas será que eu não consigo aplicar conceitos de storytelling? Trazer um exemplo através de uma narrativa, ou de uma analogia?
Todas essas estratégias são conteúdos diferentes. E quando eu combino esse conteúdo com aquela forma, o que acontece? Eu tenho um resultado criativo.
Agora repare no detalhe que resolve o artigo inteiro: nem a forma nem o conteúdo estavam dentro do PowerPoint. Os dois vieram de fora. Os quatro hábitos abaixo existem para trazer esse “de fora” para dentro da sua cabeça — antes de você precisar dele.
Hábito 1: consuma conteúdo fora da sua zona de conforto
Olhe hoje para a profissão que você exerce. Se você é dentista, por exemplo, é grande a chance de que você consuma muito conteúdo da sua área de atuação. E eu não estou julgando — é normal, e é o que mantém você bom no que faz. O efeito colateral é que a tendência é eu ficar muito fechado dentro dessa minha caixa.
Veja o que acontece quando você tenta sair dela. Se eu quero começar a criar conteúdo para as redes sociais, qual é a tendência? Que eu fale do meu assunto de forma técnica — porque essa é a única maneira que eu consigo falar sobre ele. Mas eu quero chamar a atenção das pessoas dentro de uma rede social. Será que falar de forma técnica para esses meus clientes vai atrair a atenção deles?
Nesse momento, talvez você deva consumir um pouco mais de conteúdo sobre marketing digital. Uma coisa totalmente fora da sua zona de conforto — e que vai justamente te ajudar a adaptar o seu tema técnico para quem não tem o conhecimento técnico para entender você.
Um exemplo meu. Esses tempos eu li um livro muito interessante sobre criação de websites: Não me faça pensar, do Steve Krug. Um livro sobre sites na internet — nada a ver com palco, com slide, com sala de treinamento. Só que as coisas que eu aprendi ali dentro me ajudaram a criar apresentações melhores.
Lá ele falava sobre fluxo de leitura dentro de um site: por onde o olho da pessoa entra, para onde ele vai depois. E numa apresentação a gente também tem um fluxo de leitura — como eu organizo as informações lá dentro, o que a pessoa lê primeiro, o que ela lê depois.
Esse tipo de perspectiva me ajudou a criar uma nova estratégia na hora de organizar a minha apresentação. E isso só aconteceu por quê? Porque eu comecei a consumir conteúdo fora da minha zona de conforto.
| Só dentro da sua área | Fora da zona de conforto |
|---|---|
| Excelente no tema, travado na forma | Formas que ninguém do seu meio usa |
| A única linguagem disponível é a técnica | Você traduz o técnico para quem não é da área |
| As mesmas referências dos concorrentes | Referências de onde ninguém do setor olha |
| Um livro sobre sites parece irrelevante | Um livro sobre sites vira fluxo de leitura no slide |
Hábito 2: ative o modo análise no que você já consome
O segundo comportamento é sempre ativar o seu modo análise — dar uma atividade para o seu cérebro: olhar para os livros, para os seriados que você está assistindo, para o conteúdo que você consome na internet e realmente analisar o que está acontecendo ali dentro.
Porque muitas vezes a gente entra naquele modo meio zumbi, ou naquele modo de simplesmente consumir algo por diversão. E sem esse olhar crítico ativado, você perde oportunidades de enxergar ideias para aplicar no seu assunto, no seu dia a dia.
Um exemplo do que isso muda na prática. Esses tempos eu estava querendo achar uma nova forma de filmar os meus vídeos para o YouTube; eu queria passar uma mensagem um pouco mais séria. O que eu fiz? Comecei a assistir filmes de documentário e a reparar em como as pessoas filmavam as entrevistas: de que forma usavam a iluminação, em que ângulo filmavam, se filmavam mais de perto ou mais de longe.
Um dos seriados que mais me ajudou nesse tipo de análise foi o Drive to Survive, aquele da Netflix sobre a Fórmula 1. Quando eles entrevistam um piloto, eles querem colocar um pouco mais de drama naquele momento. E dá para perceber como sempre tem uma parte mais escura da cara da pessoa — porque eles não iluminam o rosto inteiro.
Com o modo análise ativado, eu entendi de que forma eles montam todo aquele cenário. E consegui pegar essa ideia e aplicar nos meus vídeos.
Se eu tivesse só assistindo o seriado por assistir, eu nunca teria percebido essa oportunidade.
É a mesma série, é o mesmo tempo de sofá. O que muda é a pergunta que você leva junto: em vez de “que legal”, pergunte “por que isso funcionou?”. Essa é a diferença entre consumir e colecionar — e é o que sustenta um visual intencional na sua própria apresentação.
Hábito 3: o método “nada vem do nada” em 3 passos
O terceiro comportamento é aplicar o que eu chamo de método nada vem do nada.
Muitas vezes a gente espera olhar para uma tela em branco do PowerPoint e conseguir criar dali a apresentação mais criativa do mundo. Mas as coisas não vêm do nada: muito do que você cria vem do seu repertório. O método tem três passos, e você aplica em qualquer situação do seu dia a dia.
1. Alimente a sua biblioteca mental. Muitas vezes eu não consigo ter uma ideia para um slide de lista — porque todas as ideias que existem na minha cabeça são aquelas de colocar os pontinhos do PowerPoint. Só que existem diferentes formas de criar um slide de lista; a única coisa é que elas ainda não estão na sua cabeça. Uma pesquisa rápida no Google atrás de alternativas mais criativas já resolve. O que eu estou fazendo ali? Simplesmente alimentando a minha biblioteca mental.
2. Estude a fonte de inspiração. Não adianta só olhar para a ideia — você precisa estudá-la. Olhe para aquele slide de lista e pergunte: como a pessoa está organizando essas cores? De que forma ela está usando os objetos? Como ela está distribuindo o texto? Uma vez que eu consigo estudar a fonte de inspiração, eu consigo pegar ela e levar para outro lugar.
3. Adapte para o seu assunto. Digamos que você fale de algo relacionado à odontologia. Eu não vou colocar um símbolo de dinheiro num slide seu, mas posso colocar a imagem de um dente — e você entende que o princípio é simplesmente substituir o cifrão por essa imagem, com fundo transparente, de um dente. Sem esse olhar analítico, o que acontece? Você pensa “ah, isso é para quem fala de dinheiro, não consigo usar no meu dia a dia” — e descarta uma referência que era perfeitamente adaptável.
Quanto mais ideias você coloca na sua cabeça, maior vai ser o seu repertório. E aí acontece uma coisa curiosa: você vai começar a ter a impressão de que está criando do zero. Mas na verdade nada vem do nada. Você simplesmente alimentou a sua biblioteca mental, estudou como ela funciona e adaptou para a sua realidade.
Hábito 4: monte seu banco de ideias antes de precisar dele
O quarto hábito de pessoas criativas é criar, sim, um banco de ideias. Porque muitas vezes você vê coisas legais na internet e no outro dia já esqueceu. A minha sugestão é simples: crie duas pastas no seu computador.
Pasta 1 — ideias para visual. Cria lá uma pasta escrevendo “ideias para visual” e, se quiser, subpastas: ideias para visual de capa, ideias para slide de lista, e assim por diante. Toda vez que você vir uma coisa legal, salva a imagem e coloca na pasta. Achou uma coisa legal na rua? Tira a foto e coloca na pasta.
Pasta 2 — ideias para conteúdo. Você leu um livro e viu uma analogia bacana que pode usar no seu dia a dia? Coloca aquela analogia ali. Teve um depoimento de um cliente seu, uma história de cliente que pode usar na sua comunicação? Coloca essa história também nessa pasta.
Por que isso importa tanto? Porque o dia que você precisar criar alguma coisa e não conseguir se lembrar de nada — ou simplesmente estiver sem ideia — você acessa essa pasta em vez de encarar a tela em branco. E é especialmente importante no começo: nesse início de processo de se tornar uma pessoa mais criativa, a gente tem dificuldade em reter tanta informação. Você precisa de um lugar que se lembre por você.
Organize esse banco por tipo de slide, e não por tema: capa, gráfico, texto, linha do tempo. É assim que ele fica utilizável, porque a sua dúvida no dia da criação nunca é genérica — é “como eu mostro esses números?”, “como eu mostro essa cronologia?”.
Com o banco montado, o processo vira baixar, estudar e adaptar: você troca as cores pelas da empresa, troca os ícones, ajusta o que precisa. Você não parte do total zero. E é por não partir do zero que sobra energia para a parte que interessa — pensar na estrutura da sua apresentação e no que ela precisa provocar em quem assiste.
Como criar uma apresentação do zero, na ordem certa
Volte ao treinamento de inteligência emocional. Na versão tradicional, a ordem é essa: pegar uma apresentação de PowerPoint, jogar um monte de conteúdo lá dentro, entrar numa sala e falar sobre esse conteúdo. Repare que a ferramenta é o primeiro passo — e todas as decisões vêm depois, espremidas dentro do que ela já sabe fazer.
Na versão criativa, a ordem se inverte. Eu preciso primeiro enxergar diferentes formas: será que eu consigo tornar esse treinamento mais gamificado, mais interativo? Só então entra o conteúdo — o tema continua sendo inteligência emocional, mas será que eu não consigo aplicar conceitos de storytelling, trazer o exemplo através de uma narrativa ou de uma analogia? Duas decisões tomadas antes de qualquer slide existir.
É essa a sequência que os quatro hábitos sustentam:
- Repertório, todos os dias. Consumir fora da sua área com o modo análise ligado e guardar o que achar nas duas pastas. Isso não é tarefa de véspera de apresentação.
- Forma e conteúdo, nessa ordem. Primeiro como aquilo vai ser entregue — o formato, o fluxo de leitura que você aprendeu num livro sobre sites. Depois o que vai dentro: a narrativa, a analogia que você anotou, a história do cliente que já estava guardada na pasta.
- Só então o slide. Com as duas decisões tomadas, o PowerPoint deixa de ser o lugar onde você cria e volta a ser o lugar onde você executa. Ele nunca te deu a ideia — e não é hoje que vai dar.
| Começar pelo PowerPoint | Começar pelo repertório |
|---|---|
| Tela em branco cobrando uma ideia agora | Banco de ideias esperando ser consultado |
| “Eu não sou uma pessoa criativa” | “Eu ainda não coloquei essa referência na cabeça” |
| A única forma disponível são os pontinhos | Várias formas coletadas, estudadas e adaptadas |
| A ferramenta define o resultado | A decisão define o resultado; a ferramenta executa |
Próximo passo
Repertório resolve a página em branco. A apresentação inteira — a ordem das ideias, o que fica no slide e o que fica na sua boca — é a decisão que vem depois dele.
Este artigo é uma peça do guia como fazer uma apresentação, onde está o passo a passo completo, de como começar uma apresentação até o fechamento.
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Veja o vídeo completo
Este artigo foi baseado na aula sobre os quatro hábitos que aumentam o seu nível de criatividade. Assista ao vídeo original:

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Perguntas frequentes
Como criar uma apresentação do zero quando eu travo no slide em branco?
O primeiro passo é aceitar que ninguém cria do zero. As coisas não vêm do nada: muito do que você cria vem do seu repertório. Em vez de encarar o slide vazio esperando a ideia chegar, decida antes qual forma a apresentação vai ter e qual conteúdo vai dentro dela, buscando referência fora do PowerPoint — e só então abra o arquivo, para executar o que já foi decidido.
Criatividade é dom ou dá para desenvolver?
Criatividade não é uma habilidade com a qual a gente nasce, é uma habilidade que você desenvolve ao longo da vida. Dependendo da escola onde você estudou, da família que você tem e do trabalho que exerce, você teve mais ou menos possibilidade de desenvolvê-la. Mas não ter desenvolvido no passado não impede você de desenvolver hoje: é tudo uma questão de mudar os seus hábitos.
O que é o método nada vem do nada?
É um método de três passos para criar a partir de repertório em vez de inspiração. Primeiro você alimenta a sua biblioteca mental, buscando alternativas que ainda não estão na sua cabeça. Depois estuda a fonte de inspiração: como a pessoa organizou as cores, usou os objetos e distribuiu o texto. Por fim, adapta o princípio para o seu assunto, como trocar um cifrão pela imagem de um dente se você fala de odontologia.
Por que consumir conteúdo fora da minha área ajuda a criar apresentações melhores?
Porque quem só consome conteúdo da própria área fica fechado dentro da própria caixa e só tem a linguagem técnica disponível. Um exemplo real: o livro Não me faça pensar, do Steve Krug, fala sobre criação de sites, mas o conceito de fluxo de leitura que está nele virou uma nova estratégia para organizar as informações dentro de uma apresentação.
O que é ativar o modo análise?
É dar uma atividade ao seu cérebro em vez de consumir conteúdo no modo zumbi. Você assiste a séries, filmes e conteúdo de internet analisando o que está acontecendo ali dentro. Foi assim que a iluminação do Drive to Survive, que deixa parte do rosto do piloto na sombra para criar drama, virou referência para gravar vídeos com um tom mais sério. Assistindo só por assistir, essa oportunidade passaria despercebida.
Como montar um banco de ideias para apresentações?
Crie duas pastas no computador: uma de ideias para visual, com subpastas por tipo de slide como capa, lista, gráfico, texto e linha do tempo, e outra de ideias para conteúdo, com analogias de livros e histórias de clientes. Toda vez que vir algo legal, inclusive na rua, salve ali. Isso importa principalmente no começo, quando ainda é difícil reter tanta informação, porque no dia da criação você consulta a pasta em vez da tela em branco.
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Ana Flávia · Fantástica Fábrica Criativa
CEO & Estrategista de Marketing Digital & Storytelling
Ana Flávia é CEO e estrategista de comunicação e storytelling da Fantástica Fábrica Criativa. Lidera a estratégia de conteúdo, copy e comunicação digital para negócios — unindo storytelling e marketing para transformar especialistas em referências no digital.
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